Erasmo Carlos – Carlos, Erasmo… (1971)

Carlos, Erasmo…” é a estréia de Erasmo Carlos em LP na multinacional Phonogram, na qual produziria uma discografia vigorosa e criativa, se firmando como um dos maiores artistas brasileiros de sua geração, além de ser um compositor genial, ao lado, lógico, do seu parceiro e irmão camarada Roberto Carlos.

O período de 1970 pra 1971 fora bastante produtivo para Erasmo Carlos. Além de deixar a RGE, gravadora na qual iniciou sua carreira solo em 1965, registrou pra mesma o clássico LP Erasmo Carlos e os Tremendões, no qual demonstrou um amadurecimento artístico. Ainda no mesmo ano, foi convidado por André Midani, então presidente da Companhia Brasileira de Discos, para integrar o elenco da mesma, que já contava com grandes nomes da música brasileira como Elis ReginaCaetano VelosoGilberto GilGal CostaNara Leão e outros.

André já pensava em contratar Erasmo desde o fim da década de 60, quando o produtor Manoel Barenbein (que já trabalhou com Erasmo na RGE) sugeriu o seu nome pra trabalhar na gravadora, detentora dos selos PhilipsPolydorElencoFontanaForma e Reprise. Ele sempre considerou que as melhores músicas compostas pela dupla Roberto e Erasmo eram justamente as que Erasmo pegava pra si mesmo. Diante disso, Midani contratou o músico, dando direito de liberdade de criação, argumentando que tudo o que ele fizesse e gravasse era importante. Isso se deve muito ao estouro de Sentado a Beira do Caminho, balada romântica de tom lacrimoso, lançada no final de 1969, quando Erasmo estava desacreditado após o fim da Jovem Guarda e deu um soco na boca do estômago do mundo ao provar o contrário.

Erasmo Carlos estreou na nova gravadora pelo selo Philips, com o compacto simples de número 365.307, contendo as músicas A Semana Inteira no lado A e Gente Aberta no lado B. A primeira mostra a veia romântica de mensagem direta, sem botar nenhum defeito. A segunda, já revela a adesão de Erasmo ao universo hippie com os versos Gente certa é gente aberta… se o amor chamar eu vou. Não foi a toa que esta segunda entrou no álbum. Depois desse compacto, veio outro, já em 1971, de número 6069.002, trouxe Maria Joana , uma espécie de mambo de arranjo super experimental, feito pelo não mesmo experiente Rogério Duprat, considerado o Mago da Tropicália. A música teve o acompanhamento do grupo Caribe Steel Band, e abordava o envolvimento platônico de Erasmo com a maconha. A droga tinha o apelido de marijuana e foi um escândalo pra época. A censura proibiu a música de ser executada nos meios de comunicação. O Tremendão tentou argumentar que a música foi feita pra homenagear a filha de Nelson Motta, de nome Joana e que estava prestes a nascer, mas não adiantou. Do outro lado do compacto, vinha Vinte e seis anos de vida normal, de autoria de Marcos e Paulo Sérgio Valle, é uma mera sessão de análise, conectada a um certo desespero, onde o protagonista da história reitera vários acontecimentos e desejos de uma vida banal que mal ultrapassa um quarto de século.(Sei que muita coisa que eu fiz eu não quis…Sei de muita coisa que eu quis que eu não fiz). Ambas as duas canções também entraram em Carlos, Erasmo….

As gravações do álbum começaram no primeiro semestre de 1971. No time de músicos, a banda Os Tremendões e novatos como o guitarrista Lanny Gordin, os mutantes Sergio Dias (guitarra), Liminha (baixo) e Dinho Leme (bateria), sem contar o percussionista Dirceu Medeiros, dentre outros. Nos arranjos, temos Chiquinho de Moraes, na época o diretor musical de Roberto Carlos, com seus arranjos enxutos, de timbres limpos, mas esmerados em riqueza de detalhes e orquestrações sob medida. Rogério Duprat, com todo o seu experimentalismo neo-clássico junta o universo da música clássica com a batida sincope da Bossa Nova e o virtuosismo do Rock Progressivo. Na mesma linha de Rogério, temos Arthur Verochai, que bebeu muito das fontes do Rock psicodélico e do folk americano e juntou essas influências com o rigor da estrutura das orquestras.

O disco já começa com uma pancada: De Noite na Cama, feita por Caetano Veloso, na época exilado em Londres. Caetano a fez de encomenda pra Erasmo, que gostou e imediatamente a gravou, como um samba marcado pela rítmica de um berimbau. Em seguida, vem Masculino e Feminino, com participação de Marisa Fossa, que foi integrante do grupo de rock gaúcho O Bando e faleceu em 2010. Em seguida, É Preciso dar um jeito, meu amigo, mensagem de forte cunho político e social. Aí, se já não fosse suficiente, temos a revolta de Taiguara em Dois Animais na Selva suja da Rua. No mais, faixas como Mundo Deserto (também gravada por Elis Regina no mesmo ano), Não Te Quero Santa (Vitor Martins, Sérgio Fayne e Saulo Nunes), Ciça, Cecília (tema da trilha da novela “A Próxima Atração“, exibida pela Globo em 1970) e Em Busca das Canções Perdidas Nº 2 exalavam o ar do universo desbunde que dava uma das tonalidades do início da década de 70. Vale citar a roupagem rock pré-punk de Agora Ninguém Chora Mais, do então denominado Jorge Ben e que o mesmo havia gravado no obscuro álbum Big Ben (Philips, 1965). Também se destaca Sodoma e Gomorra, da dupla Erasmo e Roberto, que fala da persistência do mundo com seus erros crassos mesmo depois do episódio transformado em conto bíblico.

Carlos, Erasmo… provou que Erasmo Carlos estava mais antenado do que nunca nas questões mais sensíveis sobre o mundo e que de fato era um compositor primordial, que sempre buscou a inovação e renovação de seu fôlego. O álbum saiu pelo majestoso selo Philips e foi produzido pelo aclamado Manoel Barenbein, sendo Nelson Motta responsável por “Ciça, Cecília”. Foi gravado nos Estúdios Prova e da RCA de São Paulo e Companhia Brasileira de Discos Phonogram – Rio de Janeiro. Teve bastante repercussão na mídia e fez sucesso. A obra-prima de Erasmo Carlos se aproxima de 50 anos de vida sempre atemporal, como uma obra de Leonardo da Vinci ou um retrato fiel da juventude e da mente produtiva de Erasmo Carlos.

– Ficha Técnica:

Artista: Erasmo Carlos
Álbum: Carlos, Erasmo
Produção: Manoel Bareibein e Nelson Motta (Faixa 10)
Co-Produção: Erasmo Carlos e Paulo de Tarso
Selo: Philips
Gravadora: Companhia Brasileira de Discos Phonogram
Gênero: Pop
Estilo: Psicodélico
Ano: 1971

– Faixas:

01 De Noite na Cama (Caetano Veloso)
02 Masculino e Feminino (Homero Moutinho Filho)
03 É Preciso Dar um Jeito, meu Amigo (Erasmo Carlos; Roberto Carlos) [Participação Especial: Marisa Fossa]
04 Dois Animais na Selva Suja da Rua (Taiguara)
05 Gente Aberta (Erasmo Carlos; Roberto Carlos)
06 Agora Ninguém Chora Mais (Jorge Ben)
07 Sodoma e Gomorra (Erasmo Carlos; Roberto Carlos)
08 Mundo Deserto (Erasmo Carlos; Roberto Carlos)
09 Não te Quero Santa (Sérgio Fayne; Vitor Martins; Saulo Nunes)
10 Ciça, Cecília (Erasmo Carlos; Roberto Carlos)
11 Em Busca das Canções Perdidas Nº 2 (Fábio; Paulo Imperial)
12 26 anos de vida normal (Marcos; Paulo Sérgio Valle)
13 Maria Joana (Roberto/Erasmo Carlos) [Participação Especial: Caribe Steel Band]

– Arranjadores:

*Chiquinho de Moraes: Faixas 01 a 09 e 11
*Rogério Duprat: Faixas 12 e 13
*Arthur Verocai: Faixa 10

– Curiosidades:

*Carlos, Erasmo… ganhou sua primeira versão em CD em 2002, no box Mesmo que Seja Eu, produzida por Marcelo Fróes. Na mesma edição, A Semana Inteira foi incluída como faixa bônus.

Maria Joana possui o apelido de “O Som do Verão“.

Fonte: O GLOBO DA MÚSICA