Gal Costa & Caetano Veloso – Domingo (1967)

Na opinião deste que vos escreve, Domingo é uma das estreias mais lindas em LP que se pode ter na vida. Gal Costa e Caetano Veloso podiam ter um álbum de estréia, cada um? Provavelmente. Mas a Philips acertou em cheio em reunir esses dois amigos talentosos, cada qual no seu espaço quando pode e se interagindo sem maiores vaidades. É um disco perfeito pra se ouvir numa manhã de sábado ensolarado pra relaxar, pra meditar em um ambiente isolado e até pra ser disco de cabeceira ao dormir.

A ideia do álbum Domingo foi concebida por João Araújo, então diretor artístico da Companhia Brasileira de Discos. O pai de Cazuza resolveu apostar no talentos dos jovens baianos, que já haviam lançado um compacto, cada um, pela RCA em 1965. A gravação e lançamento desse disco foi decisivo na carreira de ambos.

O que vemos em Caetano é que ele está bem comportado, cru como cantor em certos momentos, mas está no auge de sua forma como compositor. Gal, no quesito comportamento, está idem a Caetano. Mas por sua vez, mostra que já nasceu uma senhora cantora, uma verdadeira pérola desde cedo bem lapidada, principalmente pelo tom suave de suas interpretações, que exala uma timidez a la Nara Leão mas apresenta uma segurança marcada por nuances discretas. Resumindo: é o trabalho mais Bossa Nova dos dois, onde João Gilberto é o mentor supremo, mesmo que sua presença física não esteja no projeto.

Gal sola como vocalista nas faixas Minha SenhoraAvarandadoNenhuma Dor , CandeiasMinha Senhora (que Gal defendeu no I Festival Internacional da Canção de 1966) e Maria Joana. Caetano, por sua vez, está sozinho na faixa-título do álbum e em Onde eu Nasci Passa um RioUm DiaRemelexo e Quem Me Dera. Juntos, os dois cantam Domingo (faixa-título do LP), Zabelê (do amigo Gilberto Gil) e Coração Vagabundo, que é a canção de maior destaque do álbum. A maioria das faixas são da autoria de Caetano, mas o repertório de Domingo também abrange outros compositores, como Gilberto GilEdu LoboSidney Miller (1945-1980) e o poeta e jornalista Torquato Neto (1944-1972), todos eles ligados a corrente mais sociopolítica da então erroneamente denominada “Música Popular Brasileira“.

Domingo antecedeu os conceitos tropicalistas, sendo futuramente classificado por Caetano como “Sub-Bossa”. Todavia, o álbum foi elementar pra que a estética musical do País passasse por uma nova metamorfose após o lançamento deste que, em 2017, chegou ás bodas de prata, ou seja, 50 anos de existência. O disco é Bossa Nova de corpo e alma e transmite um clima cool ao estilo brasileiro do que Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, lendas do Jazz, fizeram em um disco dez anos antes em álbum editado pelo selo Verve. Mas também precede um clima underground que já pautava na linguagem do Rock’n Roll, mas numa vibe mais Folk. Para os arranjos soturnos do álbum, os vanguardistas da Bossa Nova Dori Caymmi Francis Himme fizeram os arranjos disco. Além deles, Roberto Menescal, o mais pioneiro e conservador deles, é o único devidamente creditado pelo arranjo da faixa título. Dori também foi responsável pela produção.

– Ficha Técnica:

Álbum: Domingo
Artista: Gal Costa e Caetano Veloso
Produção: Dori Caymmi
Selo: Philips
Gravadora: Companhia Brasileira de Discos
Catálogo: P 765.007 P
Gênero: Samba
Estilo: Bossa Nova
Ano: 1967

– Faixas:

01 Coração Vagabundo (Caetano Veloso)
02 Onde Eu Nasci Passa um Rio (Caetano Veloso)
03 Avarandado (Caetano Veloso)
04 Um Dia (Caetano Veloso)
05 Domingo (Caetano Veloso)
06 Nenhuma Dor (Caetano Veloso; Torquato Neto)
07 Candeias (Edu Lobo)
08 Remelexo (Caetano Veloso)
09 Minha Senhora (Gilberto Gil; Torquato Neto)
10 Quem me Dera (Caetano Veloso)
11 Maria Joana (Sidney Miller)
12 Zabelê (Gilberto Gil; Torquato Neto)

– Curiosidades:

* A capa do álbum traz o sobrenome de Caetano como “Velloso“.
* Personalidades da música como Edu LoboWanda Sá e Francis Himme, que produziu alguns arranjos do disco, adoraram o mesmo.
Domingo ganhou a sua primeira edição em CD no ano de 1990, pela PolyGram, futura Universal Music.

Fonte: O GLOBO DA MÚSICA