João Gilberto – Chega de Saudade (1959)

Antes de qualquer coisa, deve-se considerar o álbum “Chega de Saudade” como o registro de nascimento oficial do estilo que se denominou “Bossa Nova”, por mais que isso possa causar polêmica. Até então, o termo já existia desde o início da década de 50 e o surgimento do estilo musical sempre gera dúvidas sobre a sua origem, já que em 1953 o aclamado violonista brasileiro Laurindo de Almeida gravou, em parceria com o saxofonista Bud Shank o álbum Brazilliance, que hoje é peça de coqueluche entre os grandes álbuns de Jazz no mundo. Nesse álbum, o estilo sofisticado do Jazz norte-americano se conectou com o suingue do samba, provavelmente, pela primeira vez. E em 1957, aqui no Brasil, a saudosa Elizeth Cardoso gravou, com o então (meio) desconhecido João Gilberto no violão e o já promissor Antonio Carlos Jobim nos arranjos e composições o álbum Canção do Amor Demais, pelo selo Festa, em 1957. E até lá, músicos cantores e compositores como Dick Farney e Tito Madi já traziam no seu DNA musical o estilo mais intimista do Jazz, com um canto mais suave a la Chet Baker.

Pra começar, temos que lembrar de forma resumida o início da carreira deste baiano de Juazeiro. Desde a infância, João formava coros vocais com os colegas de escola e, ao se mudar pra Salvador, em 1947, passou a se dedicar completamente á música, abandonando os estudos. Em 1950, aceitou o convite de se integrar ao conjunto Garotos da Lua, onde ficou por pouquíssimo tempo devido aos seus atrasos em shows e ensaios. Já em 1952, gravou o seu primeiro disco de 78 rotações para a gravadora Copacabana, com as músicas Quando Ela Sai e Meia Luz, cuja influência nítida de Orlando Silva se reflete no canto de João e que nada indicava a personalidade de João que seria conhecida mais tarde. Em 1953, teve sua primeira composição gravada por sua então namorada Marisa Gata Mansa, chamada “Você Esteve com Meu Bem” (parceria com Russo do Pandeiro). Nesse mesmo período, chegou a gravar jingles, até meados de 1954.

Em 1955, João vai para Porto Alegre e em seguida resolve ir a Diamantina, Minas Gerais, passar uma temporada com a sua irmã Dadainha. Foi lá que descobriu duas coisas: A batida do violão e o canto baixo que podia ser adiantado ou atrasado em relação ao ritmo, desde que a batida fosse constante. E isso ele descobriu ao se isolar no banheiro da casa de sua irmã, pois a acústica do azulejos o permitiu descobrir o estilo no qual formaria a sua identidade e se consagraria futuramente. Após oito meses, João volta para Juazeiro com essa sua bagagem musical nas mãos e compõe a música Bim Bom. Em 1957, João Gilberto muda-se para o Rio de Janeiro.

Após ganhar a vida como músico na noite carioca, eis que um dia João bate a porta de Roberto Menescal, que estava na casa do pais em uma festa. Assim que permitiu a entrada de João no local, este mostra a música Bim Bom, que abala as estruturas de Menescal, que por sua vez leva imediatamente João a alguns de seus amigos, como Ronaldo Bôscoli, que também teve a mesma reação de surpresa com o estilo peculiar de João e sua música. Nesse mesmo período, conhece Chico Pereira e através deste conhece Tom Jobim, com quem formaria uma parceria vitoriosa, também incluindo o poeta e letrista Vinicius de Moraes.

Após a experiência de gravar o disco de Elizeth Cardoso, João Gilberto é contratado pela Odeon e grava um 78 rotações, sob a produção de Aloysio de Oliveira e arranjos do colega Tom. O disco trouxe as canções Chega de Saudade (gravada anteriormente por Elizeth) e Bim Bom e estourou primeiramente em São Paulo, tendo o reconhecimento devido no Rio pouco tempo depois. A sonoridade limpa com uma refinada gravação realizada pelos técnicos de som que tiveram que ter cuidado com a forte personalidade de João trouxe novos avanços para o modo de gravação no Brasil e no mundo. Ainda no mesmo ano, veio um novo 78 rpm com A Felicidade e Nosso Amor, ambas compostas por Tom e Vinicius e que fizeram parte do filme Orfeu do Carnaval.

Logo após os dois singles, vieram as gravações do primeiro LP de João Gilberto, que precisou de muita paciência dos técnicos, do produtor, do colega e arranjador Tom, dos músicos e do próprio João, que fez diversos takes até que o seu perfeccionismo se contentasse com o material gravado. Vale lembrar que o fato de ainda se gravar quase que exclusivamente em mixagem monaural dificultava mais as coisas. Provavelmente a Odeon passou a se dedicar ao som estéreo só a partir de 1959, sendo que nos Estados Unidos a novo formato de som começou a se desenvolver no final de 1956.

Dentre os músicos, incluiu-se a presença fundamental do baterista Milton Banana,cuja batida sincopada precisou ser a mais suave, baixa e clara possível, utilizando uma escova e a baqueta no aro da caixa. João e Milton tocavam juntos desde 1957.

Assim que o LP foi lançado, em março de 1959, o sucesso foi imediato. Até então, nada era tão diferente quanto ao estilo da batida do violão e o canto baixo de João Gilberto. Isso permitiu que futuros compositores como Gilberto Gil, Caetano Veloso,, Chico Buarque e inclusive Roberto Carlos pudessem cantar com o seu próprio tom de voz, como se estivessem quase conversando e se valorizando.

E hoje, este clássico da música mundial completou em 2019 exatos sessenta anos de sua existência. E quando digo clássico, não tem exagero algum nisso. Toda a estrutura da música mundial sofreu fortes mudanças desde o lançamento de Chega de Saudade, sejam artísticas e comerciais. A Bossa Nova foi uma novidade tão empolgante e sofisticada que logo os Estados Unidos tratou de aprender a sua batida sincopada e o ritmo compenetrado e limpo do violão de João Gilberto, o que fez ele e seu colega Tom Jobim trilharem uma carreira respeitada, apesar de altos e baixos, na América do Norte, sejam como músicos e compositores, gravando discos que apesar da excelente qualidade sonora, embora ao ver deste que vos escreve, já não eram tão Bossa Nova como a tríade que João e Tom gravaram na Odeon entre 1958 e 1961.

Além disso, foi no mesmo ano de comemoração sexagenária do álbum que João Gilberto nos deixou, no dia 6 de julho, aos 88 anos em uma situação marcada por dificuldades financeiras e familiares. O homem morreu, mas ficou a obra.

Fonte: O GLOBO DA MÚSICA