Marisa Monte – Mais (1991)

Quando surgiu Mais, o segundo disco de Marisa Monte, ela já havia passado por dois tipos de diferentes de fama. Em 1988, mesmo sem ter lançado disco nenhum, quase todos os cadernos culturais queriam saber quem era aquela garota que misturava vários estilos musicais num só show. Quase todo mundo “sabia” que Nelson Motta tinha algo a ver com aquilo, mas o nome dele aparecia bem pouco – assim como Marisa costumava aparecer mais em fotos superproduzidas de divulgação e alguns tijolos. Chegou a virar piada numa crônica da revista Casseta Popular, já que todo mundo só falava dela sem saber o que era aquilo.

Logo depois, com o primeiro álbum (MM, ao vivo, de 1989) nas lojas, Marisa virou tema de novela (Bem que se quis aparecia direto em O salvador da pátria, trama da Globo de 1989) e passou a vender discos. Mas a depender do que o mercado esperava da MPB, também não era uma chegada das mais tranquilas. Por causa da variedade de seus primeiros shows e do álbum de estreia (tudo dirigido por Nelson) teve início uma onda de “cantoras ecléticas” nos palcos do Brasil.

Esse termo não dizia objetivamente nada, mas abarcava um monte de carreiras bem diferentes entre si e fechava o buraco da “nova MPB” no fim dos anos 1980. E, na falta de algo mais preciso, foi parar nas disputadíssimas capas dos cadernos de cultura. O Caderno B, do Jornal do Brasil, reuniu em 1989 um time que incluía Cássia Eller, Adriana Calcanhoto e Itamara Koorax, todas sob o signo de Marisa, “uma espécie de hors concours do grupo, pois já teve especial de TV, gravou um disco que vendeu mais de cem mil cópias e canta até em trilha de novela”. E como a gente já falou num texto sobre o discoThe seeds of love, do Tears For Fears, a chegada do CD no mercado provocou algumas mudanças na música no mundo todo – inclusive a necessidade de uma música mais orgânica, menos sintetizada.

Marisa Monte começou a fazer sentido numa época em que o surto coletivo de rock brasileiro já havia passado e, como em todo o mundo, a demanda era por uma música “adulta” que fizesse mais sentido quando ouvida em formato digital. Ela era a chegada desse “adulto contemporâneo” no Brasil com nova roupagem e nova postura (nada de playbacks em programas de TV, por exemplo).

E em Mais, após um começo em que cantava músicas dos outros, voltava como compositora e tentava descobrir sua turma. Que era formada por alguns dos Titãs (Nando Reis era seu namorado e Arnaldo Antunes e Branco Mello apareciam nos créditos do álbum) e por Ed Motta (segunda voz de Ainda lembro, por sinal parceria com Nando).

Para deixar os roqueiros meio com crise de identidade, a ficha técnica tinha nomes da música de vanguarda com trânsito no pós-punk. Entre eles, o saxofonista novaiorquino John Zorn (em Volte para o seu lar e em Ensaboa, de Cartola), o tecladista japonês Ryuichi Sakamoto (em cinco faixas) e Arto Lindsay (na produção). O baixista Melvin Gibbs, que em dois anos estaria acompanhando o ex-Black Flag Henry Rollins em sua Rollins Band, tocava em quase metade do álbum (o hit Beija eu inclusive).

O resultado era MPB, mas rolou tanto no rádio (e na MTV) que Mais poderia ser visto como o mais bem resolvido produto pop nacional daquele ano. Tinha Diariamente, Eu sei, Beija eu, De noite na cama (de Caetano Veloso, mas um sucesso de Erasmo Carlos).

Nem todo mundo gostou: a crítica ainda parecia reticente, jornalistas “de rock” ficavam de nariz torcido, Marisa era cobrada por teoricamente não ser tão boa compositora do que cantora. Para O Globo, em 18 de março, ela falava que “daqui pra frente eu começo a agir mais como compositora e intérprete, não só como uma voz”. No mesmo mês, a Bizz mandava André Forastieri cobrir os passos de Marisa – o jornalista voltou convencido de que Marisa “é um estranho no ninho, que adotou uma estratégia a longo prazo” e que ela “acha que está três jogadas à frente do resto das pessoas – e vendo o tabuleiro todo”. Estava mesmo.

Fonte: POP FANTASMA