“So the Bible says” que, em 1977, o país ultrapassava o primeiro decanato de ditadura militar, quando até Luiz Ayrão chegou cantando “13 anos, e eu não te aturo mais”. No âmbito da bossa ‘lato sensu’, João Bosco e Ivan Lins lançavam magníficos LPs de amor e de protesto, cada um ao seu modo: enquanto João lembrava de que “todo o Brasil era sol, quarador” , Lins fazia a pergunta retórica: “Diz, Aparecida! Leia-se também “desaparecida”.

O pesadelo dos autores, em meio ao caos, ainda duraria oito anos, mas a música brasileira jamais se recuperou do martírio, que ainda a persegue. As letras de Aldir Blanc e de Victor Martins, nessa fase, revelam também os poetas e seu calvário. Aos poucos, a partir de 1982, o panorama foi dominado por burocratas da literatice na série, sem fim, de figuras deslumbradas, e nada deslumbrantes.

O surrealismo simbolista de Mello Menezes, nas capas dos discos de Bosco (RCA-Victor) e Lins (EMI-Odeon), são estandartes de uma beleza perturbadora. A noite – ou o alvorecer – da primeira imagem encontra o amarelo desértico da segunda, onde numa cratera se projeta a trupe circense, metáfora do agora.

A melodia do drama de Victor Martins e de Aldir Blanc já estava anunciada nessas duas obras discográficas e pictóricas, que se completam e se apartam. No espaço-tempo da consciência dos compositores, descrito pela mão do pintor, vê-se “um Jesus numa cruz toda encardida”, perdido “num grito de Carnaval”.

Saudemos e salvemos esses artistas antes que seja – se já não for – tarde demais.

KLESSIUS LEÃO (KL BAHIA)

 

 

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